A vida de Maria, parte 2 de 13

Joaquim e Ana, os pais de Maria

Os Evangelhos não mencionam os pais de Maria. Joaquim e Ana aparecem em narrativas apócrifas antigas, lidas com respeito pela tradição, mas que não são Escritura. Aqui estão o que contam, de onde vêm e o que dizem sobre o anjo.

Gravura em preto e branco: um homem ajoelhado numa paisagem com árvores e um rebanho olha para o alto, onde um anjo de grandes asas desce entre os ramos; ao fundo, pastores e um lago.
Albrecht Dürer, Joaquim e o Anjo, da série A Vida da Virgem, cerca de 1504.Autoria: Albrecht Dürer. Acervo: The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Licença: CC0 1.0 (Open Access do The Metropolitan Museum of Art). OrigemVer a obra inteira

Tipo de conteúdo: Informação histórica documentada

De onde vêm essas narrativas

Segundo a Enciclopédia Católica (1907), toda a informação sobre os nomes e a vida de Joaquim e Ana vem de literatura apócrifa: o Evangelho da Natividade de Maria, o Evangelho do Pseudo-Mateus e o Protoevangelho de Tiago. A forma mais antiga do Protoevangelho remonta a cerca do ano 150. No Oriente ele teve grande autoridade, e trechos eram lidos nas festas de Maria; no Ocidente foi rejeitado pelos Padres até ser incorporado à Legenda Áurea, de Tiago de Voragine, no século XIII, e daí a história de Ana se difundiu.

A mesma enciclopédia adverte que não se pode aceitar como indubitável o que esses textos dizem apoiando-se só na autoridade deles, e qualifica de lenda espúria genealogias posteriores que atribuem nomes e casamentos a Ana. Por isso, aqui tudo o que vem desses textos aparece rotulado como narrativa apócrifa.

Fontes: St. Anne (Enciclopédia Católica, 1907)

Tipo de conteúdo: Narrativa apócrifa

A oferta recusada e o deserto

No Protoevangelho de Tiago, Joaquim é um homem muito rico que apresenta suas ofertas em dobro. Na grande festa, um homem chamado Rubim lhe diz que não lhe convém oferecer primeiro, porque não deixou descendência em Israel. Joaquim consulta os registros das doze tribos, vê que todos os justos tiveram descendência, lembra que Deus deu um filho a Abraão na velhice, e se retira ao deserto, onde arma sua tenda e jejua quarenta dias e quarenta noites. O Pseudo-Mateus conta o mesmo episódio com o sacerdote chamado Ruben, e acrescenta que Joaquim foi para junto de seus rebanhos nas montanhas.

Fontes: Protoevangelho de Tiago (tradução em inglês); Evangelho do Pseudo-Mateus (tradução em inglês)

Gravura em preto e branco: sob um grande arco, diante de cortinas, sacerdotes e outras pessoas reunidos em torno de uma mesa-altar onde se faz uma oferta.
Albrecht Dürer, A Rejeição da Oferta de Joaquim, da série A Vida da Virgem, cerca de 1504.Autoria: Albrecht Dürer. Acervo: The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Licença: CC0 1.0 (Open Access do The Metropolitan Museum of Art). Origem

Tipo de conteúdo: Narrativa apócrifa

O lamento de Ana

Ana chora duas tristezas: a viuvez simbólica e a falta de filhos. Veste as roupas de casamento, desce ao jardim por volta da hora nona, senta-se sob um loureiro e ora, pedindo que Deus a abençoe como abençoou o ventre de Sara. Vendo um ninho de pardais na árvore, queixa-se de que nem as aves, nem os animais, nem as águas, nem a terra são estéreis diante do Senhor (Protoevangelho de Tiago 2-3).

Fontes: Protoevangelho de Tiago (tradução em inglês)

Tipo de conteúdo: Narrativa apócrifa

O anjo que anuncia a Joaquim e a Ana: o que cada versão diz

No Protoevangelho de Tiago (cap. 4), «um anjo do Senhor» aparece a Ana e diz que sua oração foi ouvida: ela conceberá e dará à luz, e sua descendência será lembrada no mundo todo. Depois, dois anjos anunciam que Joaquim volta com seus rebanhos, porque «um anjo do Senhor» também desceu até ele, dizendo: «Joaquim, Joaquim, o Senhor Deus ouviu a tua oração; desce daqui, porque tua mulher Ana vai conceber».

No Pseudo-Mateus (cap. 3), o episódio é desenvolvido. Um jovem aparece a Joaquim nas montanhas e pergunta por que ele não volta à esposa; Joaquim responde que está há vinte anos casado e que Deus não quis dar-lhe filhos. O jovem então declara: «eu sou um anjo do Senhor», diz que apareceu à esposa quando ela chorava, e anuncia que Ana concebeu uma filha, que estará no Templo e sobre quem o Espírito Santo repousará. Joaquim passa a tarde em oração, e depois, em sonho, o mesmo anjo reaparece e diz: «sou o anjo designado por Deus como teu guardião; desce com confiança e volta a Ana». Quando Joaquim já voltava, o anjo do Senhor aparece a Ana e diz: «Vai ao portão que se chama Dourado e encontra teu marido no caminho».

Nenhum dos dois textos identifica esse anjo como Gabriel. Gabriel só é nomeado no Evangelho de Lucas (Lc 1,26), onde é enviado a Nazaré, a Maria: esse é outro acontecimento, a Anunciação, tratada em outro capítulo. O Protoevangelho cita o «arcanjo Gabriel» apenas depois, ao recordar a Visitação.

Fontes: Protoevangelho de Tiago (tradução em inglês); Evangelho do Pseudo-Mateus (tradução em inglês); Evangelho segundo Lucas (Nova Vulgata)

Tipo de conteúdo: Narrativa apócrifa

O encontro no portão

No Protoevangelho, Ana espera «junto ao portão», vê Joaquim chegar com os rebanhos, corre e se lança ao seu pescoço, dizendo que agora sabe que o Senhor a abençoou muito: «a viúva já não é viúva, e eu, a sem filhos, vou conceber». No Pseudo-Mateus o lugar tem nome: é o portão «chamado Dourado», e Ana espera ali muito tempo, rezando, até avistar o marido. O nome Porta Dourada aparece, portanto, nesse segundo texto; o Protoevangelho fala apenas em «portão».

Fontes: Protoevangelho de Tiago (tradução em inglês); Evangelho do Pseudo-Mateus (tradução em inglês)

Gravura em preto e branco: sob um arco ornamentado, um homem e uma mulher de mantos longos se abraçam; à esquerda, outras figuras observam; ao fundo, muralha e paisagem.
Albrecht Dürer, Joaquim e Ana na Porta Dourada, da série A Vida da Virgem, cerca de 1504.Autoria: Albrecht Dürer. Acervo: The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Licença: CC0 1.0 (Open Access do The Metropolitan Museum of Art). Origem

Tipo de conteúdo: Arte e iconografia

Como a arte representou essas cenas

As cenas da rejeição da oferta, do anjo a Joaquim e do encontro na Porta Dourada fazem parte da série de xilogravuras de Albrecht Dürer sobre a vida da Virgem (folhas datadas pelo museu entre cerca de 1502 e 1511) e foram tema de outros artistas. O acervo do Metropolitan Museum of Art reúne obras sobre o encontro por Dürer (1504), Albrecht Altdorfer (cerca de 1513), Lucas van Leyden (1520) e o escultor Benedikt Dreyer (cerca de 1515-20). Essas obras seguem os textos apócrifos, não o Evangelho.

Fontes: Acervo Open Access do Metropolitan Museum of Art: obras sobre a vida de Maria

Tipo de conteúdo: Tradição cristã

Uma igreja para os pais de Maria

A Custódia da Terra Santa registra que, no período cruzado, foi construída perto de Tzippori a igreja dos Santos Joaquim e Ana, para recordar a tradição apócrifa que situava ali a casa dos pais de Maria.

Fontes: Nazareth (Custódia da Terra Santa)

Tipo de conteúdo: Liturgia e calendário

Memória litúrgica

O Calendário Romano Geral inclui em 26 de julho a memória dos Santos Joaquim e Ana, pais da Virgem Maria. A celebração honra a vida de fé e de transmissão da fé de duas pessoas que a tradição nomeia assim, mas não transforma cada detalhe das narrativas apócrifas em fato histórico comprovado.

Fontes: General Roman Calendar (Calendário Romano Geral)

Tipo de conteúdo: Questão ainda não esclarecida

Questões sem resposta nas fontes

Onde moravam: o Protoevangelho, no trecho lido, não indica o lugar; a tradição cruzada citada pela Custódia fala de Tzippori. Quando e onde Maria nasceu, se Ana e Joaquim tiveram outros filhos, e quais eram os seus nomes de família: os textos antigos não permitem afirmar. Pesquisas em estudos acadêmicos sobre a origem e a difusão do Protoevangelho continuam pendentes.

Sem fonte específica: nota editorial do projeto.

Última verificação documental: · Revisão teológica humana: ainda não realizada.